quarta-feira, 5 de março de 2008

“A vida não é um show da Banda Calipso”[i].

To passando por uma fase difícil. Faz frio nesta cidade, estou no quarto emprego (só em 2008), sem dinheiro e sem nada para fazer - se eu pudesse ficava a tarde toda no banho, mas a água quente acaba rápido. Ta vendo? Dá tudo errado!
Com tantos problemas, bate a deprê. Dá uma vontade louca de deixar tudo por aqui e voltar para casa (a lá do Brasil), se possível antes do Carnaval, que é bom também.
Me sinto como o Corinthians. Já sabia que para me virar aqui na Irlanda meu padrão ia cair bastante, que seria mais uma trabalhadora da segunda divisão, mas nunca imaginei empatar com o Sertãozinho.
Sabe que outro dia me pediram 3 anos de experiência para poder me candidatar a uma vaga de Floor Staff (recolher copos e pratos sujos da mesa)? O resultado do jogo não podia ser pior. Apesar de ter tido boas oportunidades de marcar, até agora, em matéria de emprego, 0x0. Com tudo isso o moral fica baixa. Ainda bem que tenho uma torcida ponta-firme.
Depois de um período de “auto-piedade”, voltei para a luta e até aproveitei para registrar os meus últimos desapontamentos. Assinei um manifesto contra o racismo, o fascismo, todo tipo de preconceito e a exploração da mão de obra estrangeira. Foi a primeira vez que alguém me explicou DE-VA-GAR e em inglês qual era o motivo do movimento. Escolhi bem em qual prestar atenção. O protesto deles era o mesmo que o meu.
E você sabe que os Irishs são bem ativos politicamente? Sempre vejo alguma manifestação na rua. Aliás, política e representatividade têm sido os temas mais interessantes. Veja só: Eles são um “nadica de nada” de gente vivendo sob um governo proporcional, que, resumidamente, funciona assim:
Existem aqui pelo menos 6 grandes partidos (os maiores são o Fianna Fáil e o Fine Gael, que, a princípio, são muito parecidos). Como todos têm candidatos próprios, durante as eleições, fica a cargo dos votantes classificá-los em ordem de preferência. Ou seja, nas cédulas existem espaços para que o eleitor indique com números de 1 a 6 quem deverá ocupar as cadeiras do parlamento (o Dáil). Até aí, beleza? Tudo certo? É assim: Número 1 para o político que mais gosta e 6 para o que menos gosta. Entendeu? Então, continuando.
Com os resultados em mãos vem a segunda parte do processo: As alianças. Os partidos podem se unir para compor a maioria. Quem tem a maioria do congresso indica o primeiro ministro, ou Taoiseach. Nas últimas eleições, por exemplo, o Fianna Fáil se juntou com o Partido Verde e garantiu ao seu líder Bertie Ahern seu terceiro mandato.

Uma curiosidade: Ahern é acusado de desvio de dinheiro público, era adúltero (se divorciou recentemente) e é visto frequentemente bebendo nos PUBs de Dublin. É adorado pelos Irlandeses!
Mais uma curiosidade: Um dos principais grupos políticos do país se autodenomina Independente. Ele é formado por dissidentes dos outros partidos (principalmente do FF e FG). E são, conseqüente e obviamente, independentes. Claro!
Curiosidade três: O Sinn Féin (braço direito do IRA antes do cessar fogo) é o único partido que está presente na Irlanda do Norte também. Mas ninguém compõe com ele. Pega mal. Isso eu sei. Todo mundo fala!
Então você veja: Se aqui nem votar é fácil, dá para entender porque é melhor ser corintiano do que procurar emprego em Dublin. Você sofre também, mas pelo menos sabe que cair mais não vai.

[i] Frase de Marcelo Coelho, utilizada, esporadicamente, em sua mensagem pessoal no MSN

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