quarta-feira, 5 de março de 2008

Jobs.ie

A vida aqui em Dublin pode ser definida, hoje, na máxima (que eu sigo com devoção, aliás, adaptação livre de minha autoria): o que não mata e tem cerveja boa e gelada em todo lugar só nos faz mais fortes.
Afinal, parece que tudo que fazemos aqui é arrumar e procurar emprego, não trabalhar.
A referência é sempre o salário mínimo, o maior da Europa, 9.05 euros por hora (acabou de aumentar, até o final de 2007 eram 8.65) e o domínio da língua (quanto maior melhor o tipo de trabalho almejado). No fim das contas, é uma roubada depois da outra. E eu, que não sou exceção, caí em uma das grandes.
Fui ludibriada por uma vaga em uma empresa de Marketing, a única que não usei o meu currículo piorado e mentiroso (o que é curto e grosso e diz que tenho vasta e ótima experiência como babá, vendedora de loja e afins, além de fluência em Inglês, domínio do Espanhol e conhecimentos básicos de Francês). Fiz um teste de três dias, com entrevistas e dinâmicas, fui passando com louvor em cada uma das fases. Lindo! Negociei quatro dias de folga, logo para a segunda semana de contratada, queria ir para a Espanha. Toparam na boa. Com as minhas qualificações (brasileira) fui posicionada em um setor ótimo do negócio. Vendas. Acabei foi batendo em porta em porta vendendo cosméticos “de marca plenamente conhecida nos Estados Unidos, que estava fazendo uma campanha de pré-lançamento na Irlanda com ofertas a preços simbólicos para avaliar a aceitação de seus produtos no país”, completamente MOLHADA, no FRIO ( 3 graus com sensação térmica de -3, segundo Imprensa local), em um bairro longe para dedéu, sem lucro nenhum, sentada no ponto de ônibus, rindo sozinha do absurdo da situação. Fala sério! Só rindo.
Passada a vergonha do episódio, fui tentar ser garçonete em um PUB, até que bem freqüentado, em um bairro nobre de Dublin. Mais um desastre! Para fazer uma história longa, curta, em uma noite fui responsável pelos mais básicos erros na profissão. Derrubei uma garrafa de cerveja em um casal, molhei o chão, não sequei, uma outra garçonete escorregou e caiu. E isso nem foi o pior. Troquei grande parte dos pedidos. Mas, em minha defesa, tive os meus motivos. O primeiro: Irish é tudo igual. Vermelhinho, olho azul, dentes pretos e cara de nurd. O segundo: Não faço a menor idéia dos nomes das bebidas que eles pedem. Conheço a maioria das marcas de cerveja, mas, no mais, não consigo nem reconhecer os sons que eles emitem quando pedem alguma coisa. Se fosse possível, eu poderia depois reproduzir para o tiozinho do bar, e tava tudo certo, nem precisava entender. Mas a situação tomou proporções tão dramáticas que uma mulher (mal amada) anotou o pedido no meu bloco para mim, pois se irritou com o número de vezes que teve que repetir o pedido, tendo só aquela cara de WHAT? como resposta.
Para complicar ainda mais o surrealismo pastelão que fui protagonista, uma das garçonetes encanou que eu estava brava e ficava o tempo todo perguntando por que eu não gostava dela. Alguns dos outros funcionários tentaram mediar o mal-estar. Falaram para eu ter paciência com ela, que, coitada, era meio maluquinha, olha só, “nem conhecia Michael Jackson”. Foi tão ruim que nem me ligaram para dizer que não rolava mais o trampo, era muito óbvio. Depois dessa, tirei a informação que tinha experiência de garçonete do meu currículo piorado e mentiroso.

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