Entrei em uma discussão em um fórum do ORKUT hoje sobre os casos de deportação de Brasileiros que foram impedidos de entrar na Europa. Em especial de uma física que foi barrada na Espanha.
Para alguns membros, eu nem deveria me dar o trabalho de argumentar contra o preconceito dos Brasileiros têm em relação à própria nacionalidade. Mas, há algo em mim que não se conforma.
Como pode uma pessoa renegar a condição que lhe é dada no nascimento. Para mim é como se rejeitássemos a nossa existência. – Digo isso com certa ironia, já que uma das manifestações mais intolerantes partiu de uma menina que cita em seu Perfil no site, entre os livros preferidos, uma obra de autoria do Sartre, e (como ela é muito “gringa”) com o título original em Francês.
Essa é uma das coisas que tem me chamado mais a atenção aqui na Irlanda: A enorme distância entre mim e a grande maioria dos brasileiros em iguais condições. Trabalhando e estudando em terras Celtas. Compartilhamos de pouquíssimos gostos ou opiniões. O que tem aumentado muito a minha sensação de solidão, que já é grande quando estamos no solo dos outros.
Outro motivo de grandes reflexões, antes mesmo de sair do Brasil, é a grande expectativa que rodeiam as nossas relações com os conterrâneos. Vi em diversos Fóruns na Internet, não só no Orkut, discussões acaloradas sobre decepções e desconfianças frutos dessa aparentemente intimidade lingüística e cultural. Nos organizamos em grupos homogêneos quando não estamos no nosso país, necessitamos dessa proximidade. Isso é fato. Mas, me parece uma busca pela referência um tanto antagônica, ao passo que, na grande maioria das vezes, rejeitamos, nas conversas que travamos, essa igualdade de origem.
Nos culpamos pelas nossas dificuldades apoiados no estereótipo do terceiro mundista, explorador de riquezas e empregos alheios. Do eterno sonhador, sem papéis, sem educação sem nenhum direito de estar lá. É ele, o explorador de empregos, o único culpado pela infelicidade da profissional brasileira, que foi impedida de entrar na Espanha na semana passada, e que, portanto, não pode participar do congresso como havia planejado.
Me pergunto de quando remete essa crença. Por que culpamos apenas o Brasil quando somos podados do nosso direito de ir e vir? E a Espanha, a Irlanda, a Alemanha ou mesmo os Estados Unidos? Não se aproveitam desses sonhadores? Não alimentam as prostitutas? E, será que não têm a sua parcela de culpa na não realização dos planos da profissional brasileira?
Mesmo não tendo a intenção de ficar aqui definitivamente, tenho vivido como imigrante neste país. Não há dúvida que para a classe média de São Paulo é uma situação bem desagradável. Me deparo constantemente com os meus limites, tanto nas relações desiguais de direitos e de emprego, quanto na falta das boas referências que deixei no meu país. Mesmo assim, não compartilho da idéia predominante entre meus colegas. Não consigo acreditar que essa sensação possa melhorar com o abandono das minhas raízes. Pelo contrário, eu não me conformo! E, sinceramente, por mim, realizaria o desejo de todos. Ficariam por aqui, vivendo a vida que eles chamam de européia. Assim, quando eu voltasse, o Brasil seria um lugar um pouco melhor de se viver. Mas, de vez em quando, eu viria visitá-los e sairíamos para tomar uma Guiness, só pelos velhos tempos. Porque, apesar das diferenças, ainda somos civilizados, e não existem PUBs como os daqui.
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